Ofício das águas

Quando os primeiros raios de sol começam a despontar no horizonte e as cidades ainda dormem, muitos deles já estão de volta com o alimento fresco que vai parar na mesa de tantos brasileiros. Atravessando séculos, gerações e imensos desafios, os pescadores artesanais continuam de pé. E pegando carona no Dia do Trabalhador, o FUNBIO traz as vozes desses guardiões da biodiversidade para homenagear quem nunca desistiu de seu ofício.  

 

“Trabalhar com a pesca artesanal, pra mim, significa continuar uma história, uma tradição, um legado. É manter firmes nossas raízes”, diz Michel Theophilo, presidente da Associação Livre de Pescadores Artesanais de Guia de Pacobaíba (ALPAGP), que fica em Magé, no estado do Rio de Janeiro. Filho, neto, sobrinho e bisneto de pescadores, Michel sabe bem que suas raízes vêm de longe. E são elas que sempre sustentaram seu trabalho, mesmo quando tudo à sua volta parecia dizer que o caminho da pesca era tortuoso.  

 

Fundada no distrito que dá nome à associação, a ALPAGP já tem mais de duas décadas de existência, mas somente agora conseguiu estruturar uma frente de comercialização coletiva. Se antes os associados voltavam das águas e precisavam vender seu pescado a preços irrisórios para os atravessadores, hoje o fruto de seu trabalho vai parar nas escolas e órgãos públicos de várias cidades da região – e a um preço justo.  

 

A mudança veio pela iniciativa Marés de Pacobaíba, apoiada pelo Projeto Educação Ambiental. Com ela, a associação conseguiu finalmente estruturar sua sede, adquirir um barco, freezer, máquina de gelo e outros equipamentos que foram fundamentais para que os pescadores tivessem condições de trabalho dignas no presente – e estabilidade para planejar o futuro. “Tinha gente que nem saía mais para pescar por conta das dificuldades para vender seu peixe. Hoje, há quem queira trabalhar de domingo a domingo”, diz Michel.  

 

Processo semelhante aconteceu na Colônia de Pescadores Z-5, em Arraial do Cabo. Já se passavam mais de 100 anos que a entidade sofria na mão dos atravessadores. Mas agora esse cenário finalmente começa a mudar. Com a iniciativa Nosso peixe, nosso suor, nosso preço, a colônia pôde instalar uma fábrica de gelo e três câmaras frias em pontos estratégicos onde há o desembarque da pesca artesanal no município.  

 

Esses simples investimentos em infraestrutura já fazem toda a diferença no trabalho e na vida dos pescadores. Se antes eles chegavam a gastar R$ 1.200 por mês na compra de gelo a cada vez que saíam para pescar, agora a fábrica garante que esses gastos não ultrapassem os R$ 300. As câmaras frias também têm permitido que os profissionais armazenem seu pescado, driblando os compradores intermediários e possibilitando vendas mais estratégicas e justas.  

 

“Tudo isso deu um novo gás para a gente”, celebra o pescador Evanildo Azeredo Sena, diretor financeiro da Colônia Z-5. Segundo ele, a histórica falta de investimentos no setor da pesca artesanal tem levado muitos companheiros a desistirem do ofício. Mas mesmo diante de tantas dificuldades, Evanildo sempre deu um jeito de se manter firme no propósito. “O trabalho com a pesca para mim é tudo. Eu sinto como se o mar fosse parte de mim”, diz.  

 

Não é acaso, portanto, que os pescadores artesanais sejam reconhecidos como antigos guardiões da biodiversidade marinha. “A pesca artesanal demanda um conhecimento profundo do mar, do clima, da biologia das espécies. É um trabalho de extrema dignidade e beleza. A gente deve respeitar muito esses profissionais”, defende a agrônoma Eliana Leite, assessora técnica da iniciativa Maré de União, que fez nascer a Associação de Pescadores e Pescadoras Artesanais da Reserva Extrativista de Itaipu e Lagoa de Itaipu (Appreili). 

 

Situada dentro de uma Reserva Extrativista (Resex) Marinha em Niterói, a Appreili chegou ao mundo justamente para fortalecer os trabalhadores da pesca artesanal na região. E sua fundação veio acompanhada da aquisição de vários equipamentos importantes de uso coletivo, como freezer, balança, seladora a vácuo, entre outros. Os investimentos deram um novo vigor à população local: “Foi uma revolução. Reorganizamos a comunidade, começamos a fazer a feira do pescado e a nossa autoestima voltou: todo mundo ali agora tem orgulho de ser pescador”, diz Eliana.  

 

Tudo isso mostra que a pesca artesanal continua muito viva, apesar dos obstáculos estruturais que enfrenta em todo o território nacional. Resistindo há séculos de negligência do poder público, os pescadores só precisam de políticas públicas adequadas para fazer florescer toda a sua capacidade criativa. “Novos desafios virão, claro. Mas agora estamos preparados para encarar o que vier pela frente”, diz Evanildo. E Michel entrega o seu sonho para o futuro: “Que os nossos filhos possam voltar a enxergar a possibilidade de viver da pesca, como acontecia antigamente”.  

 

Foto: Joaquim Lima