“Nós vivíamos nas mãos dos atravessadores, com o preço do pescado lá embaixo. Muitos nem saíam mais para pescar, pois não tinham como escoar a produção. Nosso sonho era um dia ter estrutura para tirar os pescadores desta condição e eles terem mais liberdade para trabalhar”.
O que antes era um sonho hoje finalmente se tornou realidade. Situada às margens da Baía de Guanabara, no município de Magé, a Associação Livre de Pescadores Artesanais de Guia de Pacobaíba (ALPAGP) levou mais de 20 anos para conseguir quebrar as correntes que atrelavam o comércio de peixes aos atravessadores. E agora, o caminho definitivamente não tem mais volta: “Hoje tem pescador que quer trabalhar de domingo a domingo”, diz o presidente da ALPAGP, Michel Theophilo.
A mudança profunda, claro, não veio do dia para a noite. Mas teve alguns marcos históricos e simbólicos. Um deles foi a chegada de um caminhão frigorífico tão esperado pelos trabalhadores da associação. Com capacidade de armazenar até 1,5 tonelada de pescado, o veículo foi adquirido com recursos do Projeto Educação Ambiental e entregue no último mês de março. Com pouco tempo de casa, o frigorífico móvel já rodou por longas estradas.
“Foi algo muito esperado, sonhávamos com isso desde a nossa fundação. Já havíamos tentado com carros menores, com uma Fiorino, mas não deu certo. Hoje o caminhão vai para todo canto que precisamos levar nosso pescado. E isso inclui não só o município de Magé, mas também o Rio de Janeiro, Maricá, Nova Iguaçu e Niterói”, afirma Michel, feliz com a conquista coletiva.
Apesar de existir há mais de duas décadas, foi somente nos últimos anos que a ALPAGP conseguiu estruturar uma frente de comercialização mais robusta e organizada. Se antes seus associados voltavam das águas e tinham que oferecer seus peixes ali mesmo, na beira da praia, agora eles se unem para entregar a cada mês cerca de 10 toneladas de pescado para uma cartela de grandes mercados formais.
“Nossos peixes estão indo para as escolas de Magé, para o banco de alimentos das prefeituras de Niterói e Nova Iguaçu, para as cozinhas solidárias da Ação da Cidadania e outros mercados”, diz Michel, que por muitos anos emprestou uma loja da família para abrigar as reuniões da ALPAGP. Hoje, a associação já tem uma sede própria. Em 2021, a entidade recebeu o primeiro apoio do Projeto Educação Ambiental e começou a se estruturar para voar mais alto.
Dali em diante chegaram mesas, cadeiras, computador e toda mobília necessária para que o espaço se tornasse, de fato, uma sede. E a lista de compras também incluiu instrumentos fundamentais para quem vive do ofício da pesca, como barco, freezer, máquina de gelo e outros equipamentos.
Fisicamente amparada, a associação partiu então para estruturar sua gestão. Por meio de oficinas de Desenvolvimento Institucional, Procedimentos Administrativos, Planejamento Financeiro, Elaboração de Projetos, entre outras, os pescadores se sentiram aptos para traçar um ambicioso plano de negócios. E foi desta semente nutrida por muita vontade e perseverança que a ALPAGP começou a acessar mercados formais importantes como o Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) e o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA).
Assim, a venda incerta e individual de peixes que ocorria na areia da praia com os atravessadores deu lugar a uma comercialização segura, sustentável e coletiva. “Nós nem conhecíamos esses programas. Mas aos poucos fomos avançando e enxergando novos caminhos possíveis”, diz Michel, ressaltando que as mudanças têm melhorado a qualidade de vida dos trabalhadores. “Tudo isso vem contribuindo para a geração de renda das famílias, que hoje já saem tranquilas para o trabalho, pois sabem que teremos para onde vender nosso pescado”.
E segundo ele, o enorme salto que a ALPAGP já conquistou ainda não é o fim da linha: os pescadores da associação querem chegar mais longe. “A tendência é crescer mais. Só estamos esperando abrir novos horizontes para continuar avançando”.
Foto: arquivo ALPAGP