Ciência em tempos de COVID-19

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A pesquisadora Camila Domit em reunião virtual com a equipe do projeto de conservação da toninha que ela coordena. Crédito: Reprodução

“Minha equipe estava no ar, sobrevoando para contar toninhas, quando a pandemia estourou”, lembra a bióloga Camila Domit, da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Dali em diante foi um deus nos acuda: aeroportos fechados, estradas com barreiras sanitárias, hotéis recusando hospedagem. Coordenadora da iniciativa Aspectos socioeconômicos da pesca e de capturas acidentais: uma avaliação em prol da gestão integrada e conservação da toninha na Área de Manejo II, Camila suou para garantir que sua equipe conseguisse voltar para casa, com saúde e segurança. “Foi caótico. E naqueles dias a gente achava que o mau tempo para voar era um problema”, brinca.

A chegada e o avanço acelerado da COVID-19 no Brasil obrigaram os projetos de pesquisa e conservação a reinventarem estratégias para manter seus objetivos no lugar. No caso de Camila, isso significava coordenar as ações de um trabalho que é feito ao longo de mil quilômetros de litoral, três estados (SC, PR e SP) e junto a 10 instituições científicas.

Além dos sobrevoos para estimativas do tamanho da população de toninhas – que por enquanto precisaram ser suspensos – a equipe do projeto realizava também uma série de entrevistas com pescadores. No lugar do gravador e do papo olho no olho, agora os pesquisadores fazem o levantamento de dados pelo celular: as informações coletadas nas comunidades são fundamentais para entender o cenário da pesca na região de ocorrência das toninhas.

“Os monitores que estavam diariamente nas comunidades pesqueiras passaram a fazer este acompanhamento de forma remota, por aplicativo de celular, mensagens, ligações e fotos trocadas com os pescadores”, conta Camila. “Isso deu certo. Conseguimos dar continuidade à pesquisa e manter as condições de saúde de todo mundo”.

A tecnologia virou uma aliada essencial para driblar as distâncias impostas pela pandemia. No projeto Multipesca, por sorte, a maioria das atividades de campo e de laboratório já estava em fase de conclusão quando o novo coronavírus chegou ao Brasil. Mas ainda vinha pela frente a realização de um tradicional evento que há anos toma o campus do Núcleo em Ecologia e Desenvolvimento Socioambiental de Macaé (NUPEM/UFRJ): o Dia Mundial dos Oceanos, celebrado em 8 de junho.

Reunindo centenas de estudantes, professores, crianças e outros visitantes, o evento é uma das principais atividades do NUPEM para a educação ambiental e a troca de experiências entre academia e comunidade. Mas desta vez – e pela primeira vez – o encontro teve que ser todo reelaborado para caber em uma versão virtual.

“Uma das coisas mais fantásticas no Dia dos Oceanos é justamente o contato humano. Mas o isolamento social é necessário neste momento, então para não perder a tradição resolvemos adaptar: convidamos professores e alunos que colaboraram e produziram vários vídeos educativos”, diz Luciano Fischer, coordenador da iniciativa Multipesca: Ciência para a sustentabilidade da pesca, pescado e pescadores do Rio de Janeiro.

Para quebrar o gelo dos encontros online, o coordenador do projeto Multipesca, Luciano Fischer, participa de algumas reuniões com imagens do mar ao fundo. Crédito: Reprodução

Mesmo com as restrições, a equipe que coloca o evento de pé não desanimou. Depois de muitas reuniões online – que chegaram a envolver 40 pessoas –, foi criado um canal no Youtube específico para o Dia dos Oceanos. E a celebração de um dia desdobrou-se em conteúdos divulgados ao longo de um mês inteiro.

“Alguns professores nunca tinham feito vídeos. Fomos aprendendo, fazendo juntos e tivemos resultados superinteressantes”, diz Luciano, que volta e meia arranca sorrisos e quebra a frieza das reuniões virtuais ao aparecer com paisagens de mar ao fundo.

Nos últimos meses, adaptação virou palavra-chave. Na iniciativa que aborda a ecologia e a socioeconomia da pesca do bonito-listrado na costa do Rio de Janeiro, boa parte dos trabalhos de campo e de laboratório também já estavam encerrados com a chegada da COVID-19. A etapa seguinte seria produzir um livro e organizar um workshop para apresentar os resultados do projeto aos diversos setores interessados.

À frente dos trabalhos, o oceanógrafo Lauro Madureira não demorou a perceber os primeiros reflexos da pandemia. “Aqui no Rio Grande do Sul houve um apagão geral, parou tudo. Nas primeiras semanas, não conseguíamos retorno para os orçamentos de edição, revisão, impressão do livro. E o workshop ficou inviável”, conta. “Internamente também foi complicado fazer com que todas as equipes do projeto continuassem funcionando bem. Exigir prazos, relatórios, tudo foi dificultado. Até pela disponibilidade e tranquilidade das pessoas em finalizar trabalhos, raciocinarem adequadamente”.

Aos poucos, porém, a poeira baixou e os times foram entendendo como lidar com o novo cenário. O workshop que seria presencial começou a ser reformulado para acontecer virtualmente. E o que era um problema acabou virando solução: os recursos que deixaram de ser gastos em passagens aéreas, hospedagens e com locação de espaço permitiram que o livro do projeto ganhasse uma nova versão, em inglês.

“Isso acabou sendo muito importante também porque o bonito-listrado é um peixe de interesse global: são mais de 3 milhões de toneladas capturadas no mundo inteiro. Então evidentemente existe uma demanda internacional por informações sobre os estoques da espécie”, explica Lauro.

Com a pandemia, a capacidade criativa do ser humano em driblar crises foi colocada à prova mais uma vez. Para Luciano Fischer, pelo menos uma lição positiva fica dessa experiência: “A gente sempre consegue se adaptar, como a maior parte dos organismos. Leva um tempinho. Mas a gente se adapta”, diz Luciano.

 

Texto originalmente produzido pelo jornalista Bernardo Camara para a newsletter “Linhas do Mar” para divulgação do Projeto de Apoio à Pesquisa Marinha e Pesqueira e do Projeto Conservação da Toninha.

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