Conhecer para conservar

Foto: Thiago Camara

Nos últimos dois anos, uma força-tarefa de cientistas iniciou um novo capítulo na história dos tubarões e raias marinhos que ocorrem em mares fluminenses: quatro iniciativas apoiadas pelo Projeto Pesquisa Marinha e Pesqueira driblaram um histórico vazio de dados e chegaram a conhecimentos inéditos sobre os animais – um passo fundamental para sua conservação.

Do pouco que se sabia sobre os elasmobrânquios – como é chamado este grupo de peixes – uma coisa era certa: a sobrepesca é a principal responsável pelo declínio de 80% na abundância dessas espécies. Foi a partir de constatações como esta que a Sociedade Brasileira para o Estudo de Elasmobrânquios (SBEEL) começou a fazer pressão, ainda na década de 2000, para que providências fossem tomadas. Afinal, das cerca de 900 espécies conhecidas mundialmente, pelo menos 150 ocorrem no Brasil.

Anos de mobilização levaram, finalmente, ao Plano de Ação Nacional (PAN) para a Conservação dos Tubarões e Raias Marinhos Ameaçados de Extinção, publicado em 2014.
Pela primeira vez, um documento reunia dezenas de ações e objetivos específicos para contornar aquele cenário. Mas o vaivém de governos, crises institucionais e a pandemia da COVID-19 prejudicaram muito o avanço das metas.

No estado fluminense, um novo fôlego veio em 2022, quando o Projeto de Apoio à Pesquisa Marinha e Pesqueira colocou na rua um edital voltado exatamente para contribuir com as atividades previstas no PAN. Nesta região da costa, são pelo menos 68 espécies de tubarões e 39 de raias conhecidas até o ano de 2019.

“Este foi o primeiro financiamento exclusivamente focado em tubarões e raias que conheci no Brasil. E chegou em boa hora”, afirma Mariana Alonso, bióloga marinha na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenadora da iniciativa Ecoshark, uma das contempladas pelo edital.

Sensibilização

Com os recursos, os pesquisadores puderam se debruçar sobre o tema e perceberam que os animais estão mais próximos do que se poderia imaginar. A partir de pescas incidentais e num trabalho em conjunto com colônias de pescadores, amostras dos animais começaram a chegar de praias populares como Barra da Tijuca, Recreio, Grumari e até Copacabana. Com o uso de rastreadores por satélite, também foi possível entender melhor não só a distribuição dos tubarões e raias, mas também sua movimentação ao longo do ano.

A proximidade com as atividades humanas, porém, revelou outros impactos além da pesca. Servidora da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a bióloga Rachel Ann Hauser Davis coordenou a iniciativa Efeitos de contaminantes persistentes e petrogênicos na saúde e resiliência de raias e tubarões, e implicações para a conservação. Por trás do longo título, um dos objetivos da equipe era descobrir se a saúde dos animais vem sendo afetada por pesticidas, metais, medicamentos e outros produtos químicos presentes no mar.

Para entender melhor os impactos, o time de pesquisadores analisou a presença dessas substâncias em diferentes tecidos, como músculo, cérebro, fígado, rim e pâncreas. “Descobrimos que todos os animais estão muito contaminados, sofrendo significativamente com as atividades humanas. Encontramos contaminantes até no útero das fêmeas, o que significa que os filhotes já nascem contaminados”, diz Rachel.

E se é ruim para eles, é ruim para as pessoas – que muitas vezes consomem carne de elasmobrânquios com o nome genérico de cação, sem ao menos saber se estão comprando uma espécie ameaçada ou de venda proibida. “Fizemos cálculos de risco humano e vimos que muitos elementos de metais, por exemplo, estão acima dos limites estabelecidos como seguros pela ANVISA. Inclusive, existe a possibilidade do desenvolvimento de câncer por meio do consumo de certas substâncias encontradas nos tecidos”, diz Rachel.

Os novos dados apenas reforçam uma preocupação já apontada pelo Plano de Ação Nacional (PAN) para a Conservação de Tubarões e Raias Marinhos: a necessidade de sensibilizar a população e os pescadores sobre as ameaças que esses animais vêm enfrentando. Todas as iniciativas contempladas pelo Projeto Pesquisa Marinha incluíram atividades nesse sentido, resultando em uma série de cartilhas, rodas de conversa, minidocs e outros materiais de comunicação e diálogo.

Novos rumos

O esforço coletivo inédito voltado para este grupo de animais teve um importante momento de encontro, trocas e celebração no Seminário de Encerramento do edital, que aconteceu entre os dias 27 e 29 de fevereiro. Representantes das quatro iniciativas compartilharam, cada um, os avanços e resultados de seus projetos e todos vislumbraram um futuro mais positivo para os elasmobrânquios.

“Só tenho elogios ao seminário. Foi muito rico conhecer e ver o que os outros projetos conseguiram fazer ao longo desses dois anos. Foi um ponto de partida para que os grupos de pesquisa continuem interagindo e se fortaleçam cada vez mais”, diz Rachel, da Fiocruz.
“Quanto mais os pesquisadores conversarem, melhor para a conservação. Ciência não se faz sozinho: precisamos de colaboração”.

As trocas realizadas durante o seminário já tiveram sua primeira ação concreta: a partir dos dados e resultados compartilhados ali, um relatório técnico foi construído e enviado à comissão que faz a gestão do PAN, a fim de contribuir com as ações previstas para os próximos anos.

Analista de recursos pesqueiros da Fundação Instituto de Pesca do Estado do Rio de Janeiro (FIPERJ), Luana Borde esteve no seminário e também ficou satisfeita com o que viu. “A troca que aconteceu ali permitiu a reflexão sobre o que fazer com todo aquele conhecimento. Foi um encontro multidisciplinar com respeito, valorização das experiências e com um único objetivo: a conservação dos tubarões e raias, sem desconsiderar a importância deles dentro da sociedade humana, visto a relevância que a pesca tradicional tem para o Brasil”, diz.

“Não existe avanço para a conservação se não tivermos embasamento de informação. Não há como propor políticas públicas, regulamentação, alternativas e ordenamento pesqueiro se não tivermos informações sobre como as pressões estão ocorrendo, que populações são essas, se estão saudáveis ou doentes. Tudo isso só é possível com incentivo à pesquisa”, afirma Luana. “Estou bem animada com o rumo que as coisas estão tomando”.

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