Filha, neta e sobrinha de pescadores: Margareth Julião nasceu com os pés na areia e o corpo no mar. Com 64 anos de idade, ela é uma das fundadoras e a mais jovem pescadora de uma cooperativa só de mulheres acima dos 60 anos, em Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro. Coordenadora da iniciativa Mulheres em Ação, apoiada pelo Projeto Educação Ambiental, Margareth foi a Brasília no último mês para receber o “Prêmio Nacional Mulheres das Águas”, entregue pelo Ministério da Pesca e Aquicultura.
“Afirmo com convicção: este prêmio não é apenas meu, mas de todas nós, mulheres, que lutam por maior representatividade, espaço e inclusão em um ambiente predominantemente masculino”, afirmou ela, que recebeu a honraria por sua história de luta na pesca artesanal marinha.
Talvez por desde cedo ter à sua frente o horizonte infinito do oceano, Margareth sempre enxergou longe, e nunca se encolheu diante dos desafios. Liderança nata, ela hoje está rodeada por outras 22 pescadoras e amigas que formam a Cooperativa de Mulheres Produtoras da Pesca Artesanal e de Plantas Nativas da Região dos Lagos, da qual é hoje sua vice-presidente. “A mais experiente entre nós já tem quase 80 anos de idade e continua na ativa”, conta.
Margareth Julião, coordenadora do projeto Mulheres em Ação. Crédito: Arquivo pessoal.
Animado, o grupo está feliz da vida com a última conquista coletiva: a reforma do restaurante que elas tocam em Arraial do Cabo. Dali, saem pratos típicos preparados pelas mesmas mãos femininas que buscam o pescado no mar. “Nosso espaço hoje está lindo!”, avisa Margareth.
Com apoio do Projeto Educação Ambiental, o restaurante expandiu o espaço para receber a clientela, ganhou cozinha e telhados novos e uma decoração especialmente pensada pelas donas do negócio. Além disso, foi instalado no local um sistema fotovoltaico que já trouxe mudanças rápidas para o bolso das cooperadas : “Depois que colocamos a energia solar foi um alívio: até fevereiro a conta de luz ainda vinha acima de R$ 1 mil. Agora, o valor não chega a R$ 250”, diz.
Aberto aos finais de semana e feriados, o restaurante já está ganhando o paladar de turistas e da população local. “Temos clientes que voltam desde a época da pandemia”, conta Margareth. Os ventos, portanto, andam favoráveis às pescadoras de Arraial. E elas não deixam de celebrar cada vitória, pois para chegar até ali nem sempre a maré foi tranquila.
Margareth e pescadoras no restaurante da cooperativa, em Arraial do Cabo. Crédito: Gustavo Pedro.
Criadas num tempo em que Arraial do Cabo sequer tinha luz elétrica ou asfalto, Margareth e suas companheiras penaram para serem respeitadas e reconhecidas como pescadoras. E não só pelos homens, como pelo próprio Estado: no ofício desde os 16 anos de idade, a vice-presidente da cooperativa só conseguiu tirar sua documentação de trabalho depois do seu aniversário de 50 anos.
“Éramos um grupo de amigas que vivia pescando e recebendo insultos dos homens, pois não aceitavam nossa presença no mar”, conta Margareth. “Uma das dificuldades mais comuns aqui é a gente não conseguir se aposentar, pela falta de reconhecimento do nosso trabalho. Olha que incoerência: estou recebendo um prêmio pela minha história na pesca e ainda não pude me aposentar como pescadora. Se eu tivesse a documentação desde que comecei a trabalhar na área já dava para eu me aposentar duas vezes”, brinca.
É para garantir esse e outros direitos que a Cooperativa de Mulheres luta desde 2014, quando foi criada. Segundo Margareth, atualmente cerca de 80% das mulheres que atuam na pesca em Arraial estão devidamente registradas. Por essas e outras, não é de hoje que o grupo de mulheres pescadoras da cidade é premiado. Antes de Margareth trazer o prêmio de Brasília, a atuação da cooperativa já havia sido reconhecida por outras duas premiações internacionais: uma da ONU e outra do governo da Espanha.
Mas a grande conquista para essas experientes pescadoras é manter a cabeça erguida de cada mulher que faz parte desse setor tão importante para a cultura e a economia do Brasil. “Eu espero que esses reconhecimentos encham outras mulheres de coragem para enfrentar os desafios sem medo”, diz Margareth. “A gente sabe que não é fácil. Mas se desistisse no primeiro tropeço, a gente não chegava onde chegou”.
Foto/destaque: Lourival Augusto de Almeida