Raiz forte

Foto: Larissa Santos

Vinte horas seguidas. Esta é a carga horária que Queila Lara da Conceição encarou inúmeras vezes trabalhando com turismo de massa na Ilha Grande, um dos principais destinos da Costa Verde, no Rio de Janeiro. “Ou você vive para trabalhar ou para cuidar da família”, diz ela. Nascida e criada na maior ilha marítima do estado fluminense, Queila desistiu daquela toada há alguns anos, justamente para conseguir cuidar dos filhos. Mas em breve, ela estará novamente às voltas com o turismo. Só que desta vez, sem sacrifícios: “Agora vai ser da forma como a gente sempre sonhou”, diz.

Há 20 anos vivendo na Enseada das Estrelas, um dentre tantos territórios caiçaras espalhados pela Ilha Grande, Queila conheceu o conceito de Turismo de Base Comunitária (TBC) em 2017, numa visita que fez a uma comunidade tradicional em Paraty. Acostumada com um ritmo frenético e incessante de trabalho, seu olho brilhou quando percebeu que havia formas mais justas e respeitosas de receber e guiar visitantes.

Voltou para casa com a cabeça borbulhando e aos poucos a ideia foi ganhando corpo entre os membros da Associação de Moradores e Pescadores de Enseada das Estrelas (AMPEE), da qual ela é vice-presidente. O pontapé definitivo veio em 2022, quando o FUNBIO, por meio do Projeto Educação Ambiental, lançou um edital com o objetivo de fomentar o TBC em comunidades pesqueiras no estado fluminense. A AMPEE foi selecionada e, depois de um ano e meio de trabalho, Queila e seus conterrâneos estão prestes a inaugurar quatro roteiros turísticos construídos e liderados pela própria comunidade.

“Hoje, o TBC para mim significa muito mais do que fonte de renda. Com ele a gente fortalece as pessoas do território e elas podem atuar dentro de suas próprias capacidades”, diz, ressaltando que a lógica ali não é do lucro para poucos, mas da divisão justa para todos. “Ninguém vai precisar passar o dia cozinhando 20 quilos de feijão, pois os visitantes vão almoçar em vários restaurantes. Assim, todo mundo se beneficia”.

Foi desta forma, coletivamente, que a AMPEE construiu a iniciativa Enseada das Estrelas e suas Raízes, envolvendo 7 comunidades vizinhas e beneficiando mais de 150 pessoas, a maioria mulheres. O primeiro passo foi olhar ao redor para identificar todas as riquezas naturais e culturais que podem ser vivenciadas naquele pedaço de chão e mar. “Fizemos uma cartografia social dos saberes para colocar no mapa tudo o que é importante para nós”, conta Queila.

Na metodologia da cartografia social, os mapas são construídos de forma participativa. Em vez de informações técnicas, eles trazem o cotidiano de uma comunidade, os elementos que ela própria considera relevantes. E aí entram não só as paisagens deslumbrantes do local, mas também as árvores centenárias que oferecem fruta e sombra às pessoas, o cais onde as famílias se reúnem com as crianças para se banhar, as histórias contadas por antigas cozinheiras ou artesãs e uma infinidade de outras vivências caiçaras. “Esse processo foi muito interessante, pois fomos percebendo a importância que têm as nossas casas, o nosso dia a dia”, diz. 

O passo seguinte foi justamente materializar essas vivências em diferentes roteiros turísticos pela Enseada das Estrelas. As rotas já estão prontas e serão testadas ainda em abril, para que no mês seguinte comecem as divulgações oficiais nas redes da AMPEE. Mas Queila avisa que a experiência não é para qualquer um: “A gente quer chegar a um público de turistas que saiba valorizar e respeitar a nossa história”.

 

Mulheres em movimento

A cerca de 400 quilômetros dali, no continente, um grupo de pescadoras também está aprendendo cada vez mais a valorizar suas vivências e saberes. É no distrito de Atafona, em São João da Barra (RJ), que a Cooperativa Arte Peixe abre os caminhos rumo ao Turismo de Base Comunitária. Ali, cerca de 150 mulheres já foram impactadas pela iniciativa Atafona em Movimento, que ao longo de 18 meses organizou uma série de oficinas formativas e eventos culturais para fortalecer a identidade e a autoestima das pescadoras, além de fomentar o trabalho em rede.

“Nosso grande objetivo é fazer com que as mulheres na pesca consigam se enxergar como empreendedoras. Mostrar que além de ajudar o marido em casa, elas também podem ser donas do seu próprio negócio”, diz Fernanda Pires, atual presidente da Cooperativa Arte Peixe. É neste sentido que as oficinas têm contribuído: preparando o terreno para que o TBC possa virar uma realidade no futuro. 

Realizadas em parceria com a organização local Instituto de Agroecologia e Meio Ambiente (Iama) e com a prefeitura de São João da Barra, as aulas práticas foram do artesanato à gastronomia, mas também passaram por etapas de capacitação em empreendedorismo, cooperativismo, boas práticas e até precificação de produtos.

O projeto também organizou seis eventos culturais na Praça de Nossa Senhora da Penha (a principal da cidade), para estimular ainda mais as trocas entre as participantes e, de quebra, aproveitar para expor os artesanatos e comidinhas feitas pelas empreendedoras. Não à toa, é ali que fica a sede e o quiosque da cooperativa, que também ganhou um fogão industrial, freezer, utensílios de cozinha, além de cadeiras e mesas com guarda-sol. Tudo novo: quase como um anúncio das boas novas que estão por vir.

“Quando as pessoas me perguntam o que significa o Atafona em Movimento, a primeira resposta que vem à minha cabeça é visibilidade”, diz Fernanda Pires. “As pessoas não conheciam a cooperativa, apesar de ela já ter seus 18 anos de existência. Os eventos e as oficinas foram uma forma de trazer as pessoas para perto, falar sobre o que fazemos, convidar mais mulheres a fazer parte. A gente passou a se sentir mais importante”, diz.

E se antes as próprias cooperativadas tinham alguma dúvida sobre sua capacidade de mobilizar e encantar as pessoas com seu trabalho, parece que agora isso é página virada. “Depois que o projeto terminar, queremos continuar fazendo nossos eventos. Vimos que temos potencial para trazer público, movimentar o território. Já estamos até pensando em produzir um Festival de Frutos do Mar”, conta Fernanda, animada e cheia de sonhos pela frente. 

“O projeto significou essa virada de chave dentro de nós: o turismo de base comunitária pode e deve acontecer. E somos nós mesmas as protagonistas desse movimento”.

 

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