Renovação permanente

Com mais de 100 anos de história, a Colônia de Pescadores Z-13 não se cansa de viver coisas novas. Foi quando completou seu centenário, em 2023, que a associação teve aprovado de forma inédita um projeto totalmente elaborado, gerido e executado por seus pescadores. Foi naquele período também que a colônia adquiriu seu primeiro veículo próprio. E agora, ela se prepara para botar no mar seu primeiro barco-escola comprado coletivamente.   

 

Renovação parece palavra de ordem por ali. Não é à toa, portanto, que o projeto precursor que a Colônia Z-13 colocou de pé chama-se Formação de Jovens para a Pesca. Resistindo há mais de um século nas areias mais famosas e agitadas do Brasil, em Copacabana (RJ), a associação já aproximou do universo pesqueiro cerca de 20 meninos e meninas que moram em comunidades vizinhas ao bairro carioca. Em sua segunda edição, a iniciativa desta vez terá uma embarcação de 5 metros para apoiar as atividades do processo formativo.  

 

Durante seis meses, com apoio do Museu Nacional e da Marinha do Brasil, 15 alunas e alunos vão aprender com os próprios veteranos como é ganhar a vida no mar. O aprendizado é baseado em muita troca, palestras e diálogos. Mas, claro, também passa pela vivência sobre as águas salgadas. “Sabemos que não é fácil se adaptar ao oceano. Tem que ter dom, mas também tem que ter vontade”, ensina José Manoel Pereira Rebouças, presidente da Colônia Z-13. 

 

Vontade ali é o que não falta. Antes mesmo da nova embarcação chegar, os próprios pescadores já colocavam seus barcos à disposição para que os jovens tivessem a experiência de puxar as redes e trazer o pescado do oceano. Com o barco-escola, as aulas práticas agora estão garantidas. E segundo Manoel, isso vai ser apenas o começo de outras novidades que virão pela frente.  

 

“O barco nos dá a possibilidade de ter uma visão de futuro. Por exemplo, já estamos tentando implantar também o turismo de base comunitária na Colônia Z-13”, diz ele, com um olhar lúcido e visionário de quem está acostumado a mirar o horizonte. “Estamos ao lado do Monumento Natural do Arquipélago das Cagarras, que tem fomentado a visitação pública. Então temos algumas oportunidades para trabalhar com a agenda do turismo sustentável e trazer a história de resistência que temos aqui em Copacabana”.  

 

E é exatamente isso o que os pescadores veteranos estão fazendo durante as formações com os novatos: além de compartilhar o conhecimento sobre a arte da pesca, para eles é fundamental e estratégico falar também sobre a história da Colônia Z-13. Afinal, já foram muitas tentativas de governos e do mercado de tirá-los daquele disputado espaço de terra. Para Manoel, falar da trajetória de resistência que ele e seus companheiros percorreram ao longo do último século é uma maneira de manter viva a busca por direitos da classe pesqueira.  

 

“Foi por meio da pesca artesanal que conseguimos criar nossos filhos e netos, mesmo com todas as dificuldades e desafios. E é esta história que precisamos plantar na mente desses jovens, é esta agenda que precisamos deixar escrita para que daqui a 30, 40, 50 anos os nossos netos tenham o mesmo direito de dizer: meu avô pescou aqui e eu continuo pescando”.  

 Foto: arquivo pessoal Colônia Z-13