“A gente sonha muita coisa, desde ver os mares limpos e cheios de cardume, até uma população que entenda que é preciso cuidar”, declara Sr. Manoel, presidente da Colônia de Pescadores Z-13. Em clima de planos para o futuro, representantes de seis subprojetos da última chamada do Projeto Educação Ambiental, voltada para o Fortalecimento Institucional, se reuniram nos dias 3 e 4, no Recreio dos Bandeirantes, no Rio de Janeiro, para apresentar os resultados das iniciativas de gestão, capacitação e fortalecimento de infraestrutura para o desenvolvimento da cadeia da pesca no Estado.
Dentre os sonhos do Sr. Manoel, que também é pescador e coordenador do projeto Jovens para Pesca 2, está a renovação da cadeia da pesca artesanal e a conservação do legado da mais antiga, e hoje única, colônia de pescadores de Copacabana, a Z-13. “O sonho de renovação é um sonho de resistência.”, desabafa. Apoiada pela Chamada de Fortalecimento Institucional Fase 2, a iniciativa formou 15 jovens na segunda turma, totalizando 30 alunos ao longo do projeto. Agora, o barco-escola já está pronto para levar ao mar os destaques das duas turmas para colocar em prática as aulas teóricas de Educação Ambiental, beneficiamento do pescado, comercialização e atividades práticas no mar.
Para Clarisse Rocha, também coordenadora da iniciativa, o impacto do projeto já aparece nas trajetórias individuais. Uma das histórias mais marcantes é a de uma jovem que trabalhava como entregadora de aplicativo e decidiu mudar de vida. “Ela queria ter proteína no prato. Hoje está na pesca”, relatou Clarisse.
Conhecimento e infraestrutura incentivam a cadeia da pesca
Na Baía de Guanabara, a Trama Ecológica também apostou em capacitação. Entre as atividades realizadas estão cursos de condução de embarcação, gestão institucional e manutenção de motores. “Fiquei impressionada de ver tantas mulheres botando a mão no motor”, conta Cíntia Paulino Rodrigues, Vice-presidente da Associação de Pescadores e Pescadoras de Saracuruna e Região. Ela considera o curso um dos mais marcantes pois possibilita economia com serviços de mecânica, além de segurança em alto mar.
Filha e neta de pescadores, ela hoje atua na gestão da associação e destaca como o fortalecimento institucional por meio do conhecimento ajuda as comunidades a otimizarem seu trabalho e encontrar oportunidades. “O que meu avô deixou para gente foi a pesca. Hoje a gente trabalha para proteger os pescadores e fortalecer essa atividade.”, celebra.
O projeto Marés de Pacobaíba – Fase 2 também celebrou o sucesso dos investimentos em infraestrutura que estão mobilizando a comunidade da pesca da região de Magé, Rio de Janeiro. Por lá, a dependência dos atravessadores, um desafio antigo da pesca artesanal, resultou na estruturação de um modelo de comercialização coletiva que já começa a mostrar resultados concretos.
Agora, com caminhão frigorífico, espaço para estocar o pescado e reforma da sede com máquina de gelo, em apenas três meses de vendas, a comunidade comercializou duas toneladas de pescado, movimentando mais de R$ 150 mil. “Em três meses de comercialização a gente superou o valor investido”, destacou Maria Rita Olyntho Machado, coordenadora do projeto Marés de Pacobaíba 2.
Ao mesmo tempo, a experiência revelou a importância de adaptar as estratégias às realidades locais. A ideia inicial de um plano de benefícios foi substituída por um fundo comunitário sugerido pelos próprios pescadores, uma solução que ainda está em debate na comunidade e que pode avançar rumo à sustentabilidade da estrutura conquistada até o momento.
Ao longo do seminário, outros projetos como Autonomia de Pedro em Rio das Ostras, Nosso Peixe e Lagos em Ação, ambos em Arraial do Cabo, também compartilharam conquistas comuns. A instalação de painéis solares nas sedes das Associações é a base para manter as melhorias de infraestrutura, como a instalação de câmaras frias e máquinas de gelo, possibilitando aos pescadores segurança ao voltar do mar com pescado. Por fim, o caminhão frigorífico fecha o ciclo de suporte a esses pescadores, ampliando modelos de comercialização.
“Tem pescador que estava desmotivado, pois chegava na praia e não tinha para quem vender o peixe dele, tinha que doar ou descartar. Agora, tem relato de pescador que está saindo todos os dias sabendo que vai chegar e ter estrutura para recepcionar o peixe”, comemora Michel Theóphilo, Presidente da Associação Livre dos Pescadores Artesanais de Guia de Pacobaíba (ALPAGP), parte do projeto Marés de Pacobaíba – Fase 2.
Educação Ambiental leva autonomia para as comunidades
O espaço de aprendizado coletivo, com trocas de desafios e cases de sucesso, ilustram o objetivo principal do Educação Ambiental: “A ideia era fazer com que esse recurso circulasse. Mesmo que demorasse mais para concluir, queríamos que ele chegasse a mais lugares”, refletiu Emerson Nepomuceno, do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA).
Segundo Emerson Marcondes, essa característica de beneficiar a ponta foi uma das preocupações desde o início da elaboração do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) Frade, a medida compensatória que direciona recursos para os projetos do Educação Ambiental. Isso garante que os recursos cheguem a diferentes territórios e organizações.
Além de todos as conquistas, o legado é reconhecer nas organizações a capacidade de organização coletiva para concorrer a editais e estruturar ideias e demandas ao poder público. Assim, depois de anos de trocas, capacitações e experiências, as organizações saem mais preparadas para seguir navegando por conta própria, mantendo vivas as redes de colaboração que construíram. Afinal, a história desses projetos não termina aqui, esse é apenas o começo.